HÁ A
NOSSA SENHORA DOS PRETOS. MAS, HÁ PRETOS DA NOSSA SENHORA? Notre Dame e Moçambique: cuidar da história e negar a gente. ¹
Jocivaldo dos Anjos²
Gente
não. Em Malaui, Zimbabue e Moçambique deve existir uma subespécie que não se
compara às artes de Nossa Senhora de França. - Aliás, em França há muitas Notre Dames – a serem preservadas e em Africa
muita não gentes a serem extirpadas. Já que, que fundou as Notre Dames saqueou o lugar das não gentes, né?
Quem
ler o título deste texto pode até imaginar que ele foi escrito por algum ateu, alguém
que quer negar a história e um execrador da arte, e em especial da arte sacra e
histórica que embeleza a cidade do Rio Sena e apresentou ao mundo a Revolução que
serviu de base para diversas mudanças de governos e no Estado do mundo ocidental.
Não é. Quem escreve este texto é um preto que, como os demais pretos, lutam
pelo direito de ser gente desanimalizada. Ama a arte, e a defende. Mas,
compreende que a arte da vida é suprema sobre as demais.
Não se trata de fazer comparativo com as desgraças
que atravessam o mundo. Se trata de apontar o que parece ser desgraça aos olhos
de quem possui o capital e o que não parece ser. E, a estes olhos, não aparenta
ser desgraça o que atinge o povo preto acima deste globo terrestre. Abaixo não
sabemos afirmar. Somente sabemos que entram muito mais pretos do que outra raça
qualquer.
Dados
apontam que mais de 600 pessoas naqueles três países viajaram para habitar o
submundo real. A ONU diz que há cerca de 600 mil crianças desabrigadas e ao
todo 1,5 milhão. mas... mas, as obras da Nossa Senhora de França, a magnifica Notre Dame arrecadou em um dia mais de
20 vezes a mais sem ter morrido uma pessoa sequer – não que a gente quisesse que
alguém morresse- do que os países africanos em mais de um mês de arrecadação. São
já 900 milhões de dólares arrecadados
para a recuperação da igreja de Nossa Senhora. https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/mundo/doa%C3%A7%C3%B5es-para-reconstru%C3%A7%C3%A3o-de-notre-dame-somam-900-milh%C3%B5es-de-d%C3%B3lares-1.333402
enquanto o povo Africano,
enfrentando como consequência diversas doenças conforme o https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/04/02/mocambique-registra-mais-de-mil-casos-de-colera-apos-passagem-de-ciclone.ghtml
arrecadou
pouco mais de 100 milhões de dólares. E..., o António Guterres, secretário
Geral da ONU pede a comunidade internacional para ajudar a recuperar as vítimas
que o ciclone Idai deixou pelo caminho e apontar-lhes estradas andáveis possíveis.
Não está fácil. Jamais esteve, mas... continuaremos e falar sobre.
A
ajuda não aparece de forma equivalente, pelo menos, não é por conta de o amor ser
muito mais forte à Nossa Senhora de França e ao preciosismo cultural de Notre Dame. Pois, a chegada de apoio a
um lugar não é antagônica à chegada ou negação à outro. A questão colocada é que
o mundo do capital não aprendeu ainda a ver gente preta como gente que merece vida.
Nos EUA, no Brasil, em Africa ou qualquer outro canto do mundo a nossa aparição
se dá como animais e, daí vem as pejorações adjetivadas formam parte de um
todo: o racismo estrutural. Têm-se medo dos animais. Por isso mata-se os. Eles tê m medo da gente.
A nossa
“resistência” criou até uma igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Salvador
na Bahia http://www.pelourinhodiaenoite.salvador.ba.gov.br/igreja-de-nossa-senhora-do-rosario-dos-pretos/
para poder professar o
aprendido e apreendido; a nossa Notre
Dame noir. Pois, na mistura a gente desaparece politicamente e
fenotipicamente também. Adotamos a nossa Senhora preta no Brasil como a
padroeira do país.
Portanto,
“temos” a Nossa Senhora Preta. Mas, qual nossa senhora tem a gente?
1.
Este
texto é fruto reflexivo dos tratamentos recebidos pelo mundo do capital quando
a tragédia ocorre com o povo negro e de como a comoção social atua. Evidenciando
dois casos recentes: três países de Africa e a Catedral de Notre Dame na França.
2.
Jocivaldo dos Anjos é mestre em Gestão Pública.

Comentários
Postar um comentário